domingo, 18 de março de 2012

Andando entre espinhos.

Flores entre pedras.
(Adriano Mariussi Baumruck)

Entre o querer
E o poder
Nada existe.
Entre a dúvida
E a existência,
Nas brechas
Da vida,
Floresce a
Certeza da
Vontade.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Fragmentos - 3.

Tudo o que eu não fiz.
(Adriano Mariussi Baumruck)

- falta 1 hora -

As pessoas correm pelas ruas, a energia acabou já faz 24 horas, eu uso o resto de bateria do meu notebook e tento fazer uma lista de todas as coisas que eu fiz e que não fiz. A segunda cresce desenfreadamente! Um estado catatônico me deixa imóvel na cadeira, com o cigarro na mão e a cabeça cada vez mais longe. Sei que daqui há uma hora tudo acaba, puta que o pariu... e dessa forma, a lista das coisas que eu não fiz irá se fundir com o meu ser e dessa maneira, seremos um único monte de poeira.

- faltam 45 minutos -

Vagarosamente começo a movimentar meu dedo no braço da cadeira: para cima e para baixo; para cima e para baixo. O último cigarro já foi, as cinzas já estão no chão e a bituca queima meu dedo, mas meus olhos se arregalam ainda mais. A lista dos meus “não atos”, ou a dos “não acontecimentos de minha vida” crescem e tomam conta de absolutamente toda minha cabeça. Minha mandíbula range. Aperto a mão no braço da cadeira. Encaro a tela do computador. Uma agonia começa a descer como um derrame por toda minha face, tomando meus braços, tronco e pernas.

- faltam 30 minutos –

No computador é agora o descanso de tela quem entra em ação. Sempre adorei a praia, meus pais me levavam para Comandatuba na Bahia para passar o Natal e o Ano Novo. Todos nos vestíamos de branco para esperar a hora de fazer novas promessas e de chegar a nova esperança. Hoje, estou aqui. Foto dos amigos. Foto dos amigos. Foto das paisagens e países que eu queria ter conhecido. Mulheres nuas aparecem no fim da sequência; homenageei muitas, outras eu colocava como objeto de desejo e outras eu só coloquei pois achava bonita a foto. Agora, estou aqui.

- faltam 15 minutos –

Os barulhos lá fora já sessaram. O céu parece clarear. Após o descanso de tela, o computador entra em uma tela preta que funciona como um espelho. Lá, me vejo desfigurado: olhos arregalados, barba por fazer e suando litros e litros, esvaindo-me, assim como todos que por hora parecem se aquietar. As pessoas que cultivaram suas ganancias tornam-se iguais as que forma medíocres a vida toda. Agora, todos nós somos cães que correm atrás de nossos rabos, esperando unicamente que o universo tenha piedade.

Olho para o lado. Um imenso clarão começa a se abater sobre os prédios e tomar tudo o que encontra pela frente. Abaixo minha cabeça, coloco-a entre minhas mãos. Uma lágrima cai no assoalho e toda a existência é devastada.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Postumamente.

Mais um pensamento.
(Adriano Mariussi Baumruck)

- É mais fácil esquecermos a beleza de uma natureza morta, do que entendermos a bestialidade de nossa natureza latente.

Foi o que alguém pensou antes de morrer.

Porém,
Uma voz
Entre os convidados
Indagou:

- Lamentável senhoras e senhores... lamentável...

E após isso
Pairou sobre o recinto
O silêncio
E um longo
Momento
De dúvida.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Uma flor para Bukowski.

A flor.
(Adriano Mariussi Baumruck)

Coloquei-me por entre as pernas
E fui me aproximando.
Fui sentindo seu cheiro.
Fui cheirando-a
E continuei.

Vez por outra,
Estendia meu braço
E com as pontas dos dedos
Eu tentava tocá-la
E assim, continuava.

Aproximei-me,
Fui tocando-a;
Fui cheirando-a;
Fui lambendo-a;
Despetalando-a.

Logo pude vê-la melhor :
- Rosa exposta em carne!

domingo, 8 de janeiro de 2012

Novos pontos.

Um ponto.
(Adriano Mariussi Baumruck)

Um ponto
Solto no
Papel
É um
Universo
Novo para
Quem lê
.

sábado, 31 de dezembro de 2011

FELIZ ANO NOVO!!



Gostaria de desejar aos leitores do "Que letra é" um excelente ano novo e agradecer pela companhia de vocês nesse ano que está acabando!

Muito obrigado à todos que leram e comentaram! E feliz 2012!

(Volto na segunda semana de Janeiro!)

Atenciosamente.
Adriano Mariussi Baumruck

  

sábado, 12 de novembro de 2011

Fragmentos - 2.

Sem título.
(Adriano Mariussi Baumruck)

Primeiramente eu a agarrei. Coloquei minha mão junto do lenço que ela carregava amarrado em seu pescoço e fui torcendo-o. Ela sempre teve um ótimo gosto para roupas. Era uma mulher de classe.

Logo ela foi para o chão. Montei sobre ela e pude me posicionar melhor. Pude ver seu rosto melhor. Olhei-a nos olhos e fixamente continuei meu serviço. Sobre a mesa meu jantar estava quente, porém, esfriava.

Posicionei-me melhor. Aqueles olhos verdes eram cortinas abertas, arregalados, arregaçados, deixando transbordar toda a alma de uma artista que se esvaia, porém, não era desesperada. Ela estava calma.

Certa feita ela pintou um quadro sobre nós dois. Era um quadro bastante simples sobre um casal que se beijava. Não possuía cenário e apresentava-se com poucas cores: o homem apresentava-se de maneira passiva enquanto a mulher, de maneira sórdida. Foi a única vez que ela fez isso.

A garrafa de uísque reluzia sobre a mesa, meu cigarro tornava-se cinzas no cinzeiro que ela me dera e "As flores do mal" estava aberta junto deles. Minhas mãos corriam por seu pescoço, destroçando-o, e as dela seguravam meus pulsos, me impedindo de interromper minha tarefa antes de concluí-la.

Ela respirava sobre minhas pernas. Cada vez menos... menos... menos...
Seus olhos fecharam-se e o que antes era uma figuração pacífica tornou-se horroroso e digno de pena. Era agora um animal morto e inútil. Uma carcaça completamente descartável, que sujava todo meu gabinete. Não havia sangue, mas havia um corpo que decompunha-se à olhos nus.

Levantei-me, afastei-me e bati minhas mãos algumas vezes nas calças. Jantei vagarosamente e ouvi Miles Davis após o jantar, enquanto eu submergia no uísque. Não sentia direito o fedor do corpo podre, pois esse se confundia com a lembrança do cheiro da costela e de meu cigarro. Tragava meu último cigarro assim como eu fora tragado por ela.

Andava pelo meu gabinete inquieto e infeliz, quando subitamente apaixonei-me pela figura deitada no chão. Deitei-me junto dela e sobre seu braço eu me aconcheguei. Não teria novamente aquela mulher. Chorei, e após ter chorado como uma criança medrosa que perde seu mais valioso brinquedo, eu adormeci.

Minha cabeça e meu corpo estavam deitados no assoalho frio daquele lugar. Bem que alguém poderia ter entrado lá, visto a cena e amaçado minha cabeça com um paralelepípedo, mas infelizmente não ocorreu.

Eu aproveitava a última vez que estaria junto dela. Adormeci profundamente, porém, não foi um sono com sonhos ou pesadelo, foi pior. Foi um sono vazio, onde o corpo não descansa e a mente trabalha compulsivamente. Nada vinha à minha mente, mas eu podia sentir que ela respirava junto de meu rosto.

Passado um longo tempo e com o meu corpo todo dolorido eu acordei. Não me lembro direito do que ocorreu, mas toda a louça estava lavada, minha cigarreira estava arrumada junto de meus livros, minha garrafa de uísque continuava pela metade , mas ela não estava mais lá. Fazia frio. Coloquei meu casaco e no bolço encontrei um bilhete que dizia:

“O homem louco se suicidou. Com amor”.



domingo, 30 de outubro de 2011

Blow up.

Depois daquele beijo.
(Adriano Mariussi Baumruck)

Depois daquele beijo
Eu fui para casa,
Tomei um café na padaria,
Comprei o peixe para o almoço
E segui.

Depois daquele beijo
Eu tomei banho,
Vi as putas na esquina
E até conversei com uma delas.

Depois daquele beijo
Eu fiz meu almoço,
Comi o peixe, bebi cerveja,
Dormi a tarde toda
E a noite eu conversei comigo.

Depois daquele beijo
Ainda era sexta feira,
Ainda era cedo,
Ainda havia tempo para mais um beijo,
Mas não houve.
Eu segui.

Depois daquele beijo
Eu aproveito o resto do chiclete,
Mastigo o tempo
E o jogo fora.
Passo a língua nos lábios
Procurando o vestígio
De tudo o que passou
Em um tempo mais aproveitado.

Cuspo o chiclete fora,
Compro o jornal, o cigarro
E sigo.

Mesmo vendo-a todo dia,
Quando a terei de novo
Com mais tempo?

Quem sabe...

domingo, 9 de outubro de 2011

Além verso!

Para além.
(Adriano Mariussi Baumruck)

Para além da língua;
Para além do beijo;
Para além da fala,
É para lá que eu vou.

Para além dos dedos;
Para além das mãos;
Para além dos braços,
É para lá que eu vou.

Para além das mentes hipócritas;
Para além das bocas secas;
Para além das vidas mortas;

Para além das caras tortas;
Para além dos olhares tortos;
Para além dos seres tortos.

É para lá que eu vou!

- porém, quando nada mais fizer sentido:

Eu vou para além do grito;
Eu vou para além da pedra;
Eu vou para além da perda;
Eu vou para além da dor.

Eu vou para além da carne;
Eu vou para além da alma;
Eu vou para além do trauma;
Eu vou para além de Deus.

Eu vou para além dos homens;
Eu vou para além dos pássaros;
Eu vou para além dos tempos;

Eu vou para além das normas;
Eu vou para além das formas;
Eu vou para além dos versos.

É para lá que eu vou!


domingo, 18 de setembro de 2011

Fragmentos - 1.

Sobre cafés e cigarros.
(Adriano Mariussi Baumruck)

Quando entrei, logo senti o cheiro forte de café e nicotina que empesteava o local. Era uma espelunca escondida em um subsolo de um prédio. Um dos poucos lugares que ainda se podia fumar sem ser atormentado.

Dentre algumas mesas de toalha xadrez encontrei-o. Fui até ele e sentei-me. Quando cheguei ele estava sentado curvado sobre a mesa. Acendia mais um Marlboro vermelho e logo foi me dizendo:

- Se quiser pedir alguma coisa, vá de café... a comida daqui é uma bosta! Deu uma longa tragada no cigarro e repousou a mão entre o maço e as xícaras de café que estavam sobre a mesa. Deviam ser umas cinco ou seis, não me lembro ao certo.

- E ai, o que vai querer? Disse uma moça que estava de pé ao meu lado. Quando olhei para cima não me lembro de ter visto seu rosto. Aquela fumaça o cobria. Pedi um café e ela se afastou. Todo aquele lugar me fazia tomar um fôlego poluído e de difícil compreensão. Estranhamente, ele me era muito agradável.

Posicionei-me melhor na cadeira e pergunte:

- Posso pegar um? Disse eu apontando para o maço vermelho de cigarros. Você fuma? Não, eu respondi. Ele arrumou-se, jogou seu tronco para frente e dando-me um cigarro falou:

- Sabe de uma coisa ? ... cigarro não mata... não... não mata. O que mata é stress, contas para pagar, assaltos e Derby. Isso sim mata, o resto... não. Olhei espantado para ele e com um riso meio atravessado continuou. Gainsbourg fumava Gitanes. Viveu sessenta anos e morreu de ataque cardíaco. Tá bom que o filho da puta fumava desgraçadamente, porém, só comeu mulher gostosa a vida inteira. Ele bem que poderia ter morrido de alguma doença venérea, mas se foi o cigarro, paciência, coincidências acontecem...

A moça se aproximou e colocou a xícara sobre a mesa. Olhei seus olhos e pude reparar que lindos olhos verdes ela tinha. Olhei-a por um longo tempo.
-Gostou dela? Disse ele. Sim... é muito bonita. Thalma tem muitos artifícios, além de fazer um ótimo café. Esse tipo de mulheres têm muitos pontos comigo, disse ele completando.

Eu não costumava fumar, mas já estava indo para o meu segundo cigarro. O tempo passa muito depressa quando temos uma boa conversa. É fato que eu mais ouvi do que falei naquele dia. Gosto de conversas assim. Acredito que minhas opiniões não são muito interessantes. Acendi mais um.

No fim eu acho que me acostumei ao lugar. Era tanta fumaça; era uma realidade bem particular. Parecia um daqueles filmes em preto e branco que recorta um momento do cotidiano e o expõe, sem explicação, nem começo, nem final; apenas o corte exposto, sangrando e pulsando.

As pessoas se desenvolviam em estereótipos diferentes, tentando sempre se defender dos olhares hostis. Quem nunca tentou fazer isso, se esconder por detrás de uma cortina, tentando passar como despercebido, como normal? Quem nunca fez isso?

Sei que quando eu sair por aquela porta, após subir esses degraus e me despedir desse velho amigo, nada mais disso existirá. O cigarro se apagará e tudo voltará a realidade. Sobrará somente o cheiro e um leve torpor; o coração batendo à mil e a realidade. Por isso, continuo aqui fumando, tomando meu café, vendo o tempo passar e meus pensamentos se embaralharem, além de fazer parte desse prazeroso monólogo.